E, quando tua ânsia me toca, viro água. E, porque és terra, invado teus leitos, percorro os segredos das tuas entranhas, inundo-te com a minha fluidez. E, porque sou água, misturo-me ao teu sal, enrosco-me nos teus seixos, farto-me dos teus humores. E, porque me queres água, entorno os teus sentidos, inundo teus veios, faço brotar tuas vertentes. E faço-me eterna, ampla, plena, largo e caudaloso rio para abarcar-te inteiro.

"Pearls" - Steffen Drache
Escrito por Míriam Monteiro às 19h23
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A minha razão perde-se na eternidade da tua boca, na perenidade do meu desejo, na efemeridade do teu toque. Eu me resgato, perdida e encontrada, nos labirintos que a tua boca traça pela minha pele. A trama dos teus poros redesenha a minha geografia. O suspiro que escapa do peito, traduz a urgência do meu desejo em desalinho. As emoções despenteadas. Todos os meus sentidos emaranhados, despertos, confusos, inteiros, cindidos, traduzidos nos teus olhos. Tua ânsia refratada no meu desejo. Minha calma aliciada pelo teu desatino.

"Paixão" - Clóvis Nascimento
Quero agradecer, aqui, a homenagem recebida de dois amigos. Coincidentemente, ambos, na mesma data, escolheram um mesmo poema do Meu Porto, publicando-o em seus Blogs. O Blog da Cláudia Perotti, mistura, como o nome diz, Arte, Cor e Sentimentos, traduzidos não só pelas palavras, como pelas imagens belíssimas que ela cria em tintas e telas.

"Mar de Dentro" - Óleo Dobre Tela - Cláudia Perotti
O Blog do Nilson, o NimbyPolis, é um passeio entre crônicas, críticas e impressões, escritas com a elegância de poucos e a clareza que só alguns privilegiados possuem. A ambos, o meu carinho, a minha emoção e a minha imensa gratidão.
Escrito por Míriam Monteiro às 09h51
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Escrevo como o náufrago que lança ao mar um pedido de socorro e não espera resposta ou aceno. Escrevo como quem ora a um deus em que não crê, como o cego que adivinha cores sem nunca as ter. Escrevo como quem tece horas na urdidura de uma noite sem sonhos ou estrelas. Escrevo como quem chora. Escrevo ao vento... Inútil esse meu rasgar sentimentos. Nenhuma palavra que me resgate ou cure. Ou salve.

"The Danaid" - Auguste Rodin
Escrito por Míriam Monteiro às 16h13
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Amanhece e a solidão me toma em seus mornos braços. E sussurrando teu nome nos meus ouvidos, beija, lúbrica, cada centímetro do meu corpo, vasculha recantos e desvenda os meus segredos. Ela me vira do avesso, e eu, avessa a qualquer lógica de tempo e horas, me deixo. Crava, faminta seus dentes, rasgando a minha alma, expondo os meus silêncios. Brinca, distraída, com o meu desejo, já tão antigo, já desbotado, de entrega. Invade espaços, não dá trégua. Não se deixa esquecer e nunca adormece. Ela me segreda doces mentiras, que bem sei e, ainda assim, eu as colho com o cuidado de quem colhe flores ou observa estrelas. Minha solidão não é mansa. É dura, tem arestas. Tem farpas. Minha solidão é velha, mas nunca esmorece e renasce a cada dia. Quando adormeço, ela me embala docemente, entoando cantigas de um lugar distante. Todas as cantigas que teus lábios inventaram para mim...

Amor - Jorge Casais
Escrito por Míriam Monteiro às 11h30
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Arde em mim, o desejo de tocar-te com dedos de seda e flor. De adentrar teu silêncio e tua alma, profanado teus segredos, decifrando-os com a minha língua ávida, faminta dos teus sabores. Arde em mim, o desejo de horas partilhadas, sede e fome saciadas. Arde em mim, o desejo de buscar-te na noite em que te guardas, arredio, da minha palavra. Porque começo onde termina o teu silêncio. E termino onde cala a tua voz.

Contrast II - Norbert Felzl
Escrito por Míriam Monteiro às 16h38
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Porque nasceste dos meus sonhos, das minhas horas e dos meus sentimentos rabiscados. Eu te dei a luz dos meus versos, fecundados pelos teus medos - minha palavra mais doída. E te fiz parte dos meus dias. Respirei o ar das tuas paisagens e pintei-me com as cores que já não te habitam. Nasceste quase à revelia, quase por acaso. E eu, agora, só e perdida dos meus rumos, sou só essa saudade orvalhada.
Carsten Tschach
Escrito por Míriam Monteiro às 20h17
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