Essa minha saudade tácita, que tateia, mas não toca. Só resvala, tangencia... Essa minha saudade silente, que sussurra, não grita. Mansa, só vigia. Essa ausência que chora, e não sangra. Que escorre, mas não pinga, que permeia e não se mostra. Esse desejo que corrompe os meus sentidos, desgoverna minhas horas e goteja dos meus poros. Ah, esse teu toque, guardado na memória da pele, na memória dos sentidos, é a tua impermanência nos meus dias. Esse desassossego que prenuncia a tempestade... Mas, é só o vento a desmanchar paisagens. Só essa lembrança de nós mesmos, óbvia e absurda, a reinventar poesia.

"Agianst The World" - Haleh Bryan
Escrito por Míriam Monteiro às 21h26
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Já te sinto semente, embrenhando raízes, estendendo braços, tomando espaços e entranhas. Já te sei água, líquido, fluido, vastidão e torrentes, inundando margens, revolvendo seixos, arrastando redes, roubando esperas. Já te sei pássaro, correntes de ar, asas de vento, soprando carícias, inflando desejos. Já te sei urgência, embriaguês dos sentidos, fome da carne, sede de sumos, incandescências...

"Purity" - Jana Vanourkova
Escrito por Míriam Monteiro às 20h05
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Toca-me com tuas mãos ausentes. Escreve, na minha pele, teus poemas de fome e desejo. Deixa medrar, na teia dos meus nervos, a semente dos teus anseios. Arrepia os meus sentidos. Eriça a vegetação dos meus pelos, com a brisa da tua respiração descompassada. Precipita minhas horas, e que tuas ondas varram, do meu peito, essa calma que não quero. Invade a minha vigília e cerra minhas pálpebras com teus sonhos. Deixa que o teu olhar denuncie a palavra tão guardada. Deixa que a poesia do teu toque amanheça o meu dia. Vem, inunda-me do teu mel e teus venenos. Sacia-me, que este carinho sufocado, guardado, é a minha fome. A tua sede saciada no meu beijo...

"Sheer Intentions" - Haleh Bryan
Escrito por Míriam Monteiro às 12h29
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Homem de terra, deixa que eu me perca em teus labirintos de rochas e fendas. Deixa-me pisar teus seixos. Deixa-me ser raíz entranhando-me no teu solo, estendendo-me ao largo, tomando-te inteiro, rebentando frutos. Homem de água, afoga-me com teu desejo. Deixa que eu me dilua em tuas marés. Deixa-me acalmar tuas tormentas, entornar os teus sentidos, misturar-me à melodia das tuas águas. Homem de sonhos, deixa que o gosto bravo do teu beijo corrompa os meus sentidos. Então, eu, numa secreta desobediência aos meus pudores, solto as amarras e deixo-me naufragar, lânguida e fluida, no teu desejo líquido que tudo invade.

...Mais Além... - Victor Melo
Escrito por Míriam Monteiro às 18h06
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