Mesmo que te guardes, teu silêncio te revela. E, quando tua boca cala e tuas mãos se crispam, ainda assim, eu te sei faminto. E sei do meu querer, do lento veneno que goteja de mim, quando teu olhar, em eclipse, rápido e sorrateiro como um susto, denuncia a tua fome impudente, e arrepia os meus sentidos. Fugaz, o teu delito não me escapa. E, mesmo inconfessa e impossível, a nossa fome nos delata. Cúmplices, tu e eu, seguimos assim, distraídos e cautelosos, como se não soubéssemos da pressa, como se não sentíssemos medo. Como se não houvesse o risco de, num piscar de olhos, um impensado suspiro nos desmascare e deixe exposto nosso impudico delírio.

"Reca(n) tos" - João Viegas
Escrito por Míriam Monteiro às 18h46
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Ah...Esse meu despedaçamento em ínfimas partes. Secretos e multicoloridos cacos, estilhaços de noites em que a convulsão dos sentidos apaga estrelas e abafa os sonhos. Nenhuma esperança de brisa. Nenhum álibi para essa fuga de sonhos. Nenhuma chuva que lave esse desassossego, a respiração que falha. A teia em que me enrosco, em que persisto, é só um emaranhado de frágeis fios. Um movimento mais brusco, um inesperado e abrupto suspiro, um sobressalto do peito, bastam para que o vôo se faça. Sem asas, corrompendo o silêncio, tocando o impossível.

Desconheço Título e Autor da Imagem
Escrito por Míriam Monteiro às 11h47
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Verte em mim o teu sumo, o teu sabor, a tua saliva de gosto bravo. Que o teu desejo, brando ou insano, roce a pele dos meus dias, embotando a memória dos meus sentidos. Passeia em mim com a pressa ou o vagar que o teu desejo grita. Deixa que o teu olhar denuncie os segredos em que, fugidio e fortuito, te guardas de mim. Reinventa carícias, corrompe a minha vigília, e planta estrelas na insônia dos meus dias.

"Flor Final" - Pleal
Escrito por Míriam Monteiro às 20h32
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Entre teus dedos, imaginário toque a rabiscar teias de arrepios na minha pele, viro molécula, átomo, átimo de prazer em que, fluida, me desfaço, me desmancho e me resgato. Sou tua obra, sempre inacabada, esboço, perene ensaio do teu desejo, das tuas ânsias represadas. Intangível, a tua ausência, é a minha palavra mais guardada, a secreta e indizível rima, fome da minha carne, a impossível sede saciada no teu beijo. Tecida em segredo, na urdidura dos meus poros, a poesia do desejo, escorre entre meus dedos. Líquida como pranto. Bruta como o tempo, que mastiga e devora recomeços.

"Desconheço Título e Autor da Imagem"
Escrito por Míriam Monteiro às 19h45
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