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Visto-me de todos os silêncios: os que me cabem e os que desconheço. Estranho-me... Entranho-me em lembranças do que já fui e em saudades do que ainda não conheço, mas sei. Dispo-me dos avessos e me calo diante de tantos silêncios. Espio-me pelas frestas e nesgas, todo o pó das ausências incrustado nos meus poros. Vestígios de horas nas minúcias do tempo, um quase alívio traçado em urdidura de delicados fios. Um espanto de pássaro aprisionado, um gemido abafado na insônia das noites. Asas de borboletas decepadas - avessa crisálida - o desejo represado, as indizíveis farpas. Em mim, essa fragilidade de teias, esse desvestir-me de sonhos, essa ausência de esperas, essa latência dos sentidos. A palavra silencia e a poesia dorme. Em mim, só essa mudez, nunca a quietude.

"My Soulmate" - Sabzi Gallery
Escrito por Míriam Monteiro às 16h18
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Quero-me frágil, diante das tuas premências. Quero a tua fome devorando as minhas defesas, tuas mãos invadindo meus espaços, teus dentes marcando a minha carne e tua língua lanhando meus segredos. Vê... Não quero a paz, não necessito de paradeiros, dispenso as bússolas e os sinais. Não importa se me perco, nem precisas ter cuidado. Quero o que, em mim, já quase esqueço: quero as brasas, os dentes, o grito, os riscos, os paradoxos. Seca-me a boca, a ausência da tua saliva, da tua seiva, dos teus humores. Quero a fome do teu beijo, os teus dedos fecundando os meus anseios, teus dentes tatuando minha pele de desejo. Quero que, em mim, floresçam brotos, rebentem flores e que minha alma multiplique-se em pétalas e asas. Então, vem... Que teus passos não demorem a denunciar-te. Para encontrar-te, eu me fiz assim, pronta e plena, terra fértil, mulher, poema...

"A Ilha" - A. Brito
Escrito por Míriam Monteiro às 19h36
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Que esse sentimento tão novo e tão antigo, não me vende os olhos nem aos perigos e nem às delícias. Que a minha pele lanhada de tantas marés, não me impeça de sentir a ardência dos arrepios. Que a minha boca, acostumada aos silêncios seja capaz de inventar palavras novas e risos largos. Que os meus olhos carentes de azuis, ainda possam vislumbrar matizes, e minhas mãos saibam transbordar carícias. Que a minha alma ainda se lembre do que é ter asas e se lance ao vôo tão planejado, num infinito de vésperas. Que eu saiba ser inocente, crédula de manhãs que eu quase esqueci. Que eu me esqueça dos abismos, dos absurdos, dos medos e desassossegos, dos escuros e estranhezas, das rudezas e latências... Que esse sentimento me trespasse e me traga a embriaguez dos sentidos, o sussurro de sonhos. Que me toque a pele e me permeie de suavidades. Que me chegue largo e amplo, manso ou nem tanto, pleno de cumplicidades, de silêncios e quietudes. Que me vire do avesso, me descompasse, me lateje, me inunde e se espalhe, se misture às minhas células. Que se perca nos meus labirintos e me faça querer voltar sempre. E que refaça, em mim, todos os rumos.

"Hiden Toughts" - L. Nimoy
Escrito por Míriam Monteiro às 18h33
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Vem assim, devagar e manso, como quem sussurra versos ou toca sonhos. Planta flores na aridez da minha alma. Sussurra manso, e corre, em mim, teu rio, inundando veias, alagando margens com tuas incertas marés. Se quiseres, dá-me teus desvãos, tuas frestas, e tuas nesgas, tua latência, teus medos e tuas urgências. Entrega-me teus estilhaços, teus paradoxos e teus avessos, teus vazios e tuas cheias, a calma e a tormenta, teus infinitos e teus finais. Vem e eu me farei em tantas... Eu me farei abissal e terrena, etérea e insana, plena, larga e lânguida. E, do meu regaço, para guardar-te sereno e casto, farei desmedida amplidão.

"Nu" - Marc Odley
Escrito por Míriam Monteiro às 19h14
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Não te percas, amor, pois é tão tarde. Faz amanhecer, em mim, a poesia dos teus olhos. Vem, mesmo que sorrateiramente, mesmo que em silêncio. Vem, que sei inadiável esse meu desejo, essa tua fome das minhas horas. Não te quero mais como simples promessa, como espera, como presságio. Eu te quero em carnes, ossos e dentes. Eu te quero senhor e, ao mesmo tempo, frágil, carente dos meus braços. Eu te quero poema e suor, tuas marcas na minha carne. Vem e reinventa, em mim, os sonhos. Vem, não te percas na noite em que te guardas dos meus olhos. Vem, reverte o tempo, pois é tão tarde e nunca amanheces... Vem, pois é tão imenso, tão vasto, o nunca, que me faz pensa-lo eterno.

"Between Darkness & Wonder" - Carlos A. A. Pereira
Escrito por Míriam Monteiro às 13h26
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