Meu Porto


Visto-me
de todos os silêncios:
os que me cabem
e os que desconheço.
Estranho-me...
Entranho-me
em lembranças
do que já fui
e em saudades
do que ainda
não conheço,
mas sei.
Dispo-me
dos avessos
e me calo
diante de tantos
silêncios.
Espio-me
pelas frestas
e nesgas,
todo o pó
das ausências
incrustado
nos meus poros.
Vestígios de horas
nas minúcias do tempo,
um quase alívio
traçado em urdidura
de delicados fios.
Um espanto
de pássaro aprisionado,
um gemido abafado
na insônia das noites.
Asas de borboletas decepadas
- avessa crisálida -
o desejo represado,
as indizíveis farpas.
Em mim,
essa fragilidade
de teias,
esse desvestir-me de sonhos,
essa ausência de esperas,
essa latência
dos sentidos.
A palavra silencia
e a poesia dorme.
Em mim,
só essa mudez,
nunca a quietude.

"My Soulmate" - Sabzi Gallery



 Escrito por Míriam Monteiro às 16h18 [   ] [ envie esta mensagem ]




Quero-me frágil,
diante das tuas
premências.
Quero a tua fome
devorando
as minhas defesas,
tuas mãos
invadindo
meus espaços,
teus dentes
marcando a minha carne
e tua língua
lanhando meus segredos.
Vê...
Não quero a paz,
não necessito
de paradeiros,
dispenso as bússolas
e os sinais.
Não importa
se me perco,
nem precisas
ter cuidado.
Quero o que,
em mim,
já quase esqueço:
quero as brasas,
os dentes,
o grito,
os riscos,
os paradoxos.
Seca-me a boca,
a ausência
da tua saliva,
da tua seiva,
dos teus humores.
Quero a fome
do teu beijo,
os teus dedos
fecundando
os meus anseios,
teus dentes
tatuando
minha pele
de desejo.
Quero que, em mim,
floresçam brotos,
rebentem flores
e que minha alma
multiplique-se
em pétalas e asas.
Então, vem...
Que teus passos
não demorem
a denunciar-te.
Para encontrar-te,
eu me fiz assim,
pronta e plena,
terra fértil,
mulher,
poema...

"A Ilha" - A. Brito



 Escrito por Míriam Monteiro às 19h36 [   ] [ envie esta mensagem ]




Que esse sentimento
tão novo
e tão antigo,
não me vende os olhos
nem aos perigos
e nem às delícias.
Que a minha pele
lanhada de tantas marés,
não me impeça
de sentir
a ardência dos arrepios.
Que a minha boca,
acostumada aos silêncios
seja capaz de
inventar palavras novas
e risos largos.
Que os meus olhos
carentes de azuis,
ainda possam
vislumbrar matizes,
e minhas mãos
saibam transbordar carícias.
Que a minha alma
ainda se lembre
do que é ter asas
e se lance ao vôo
tão planejado,
num infinito de vésperas.
Que eu saiba ser inocente,
crédula de manhãs
que eu quase esqueci.
Que eu me esqueça
dos abismos,
dos absurdos,
dos medos
e desassossegos,
dos escuros
e estranhezas,
das rudezas
e latências...
Que esse sentimento
me trespasse
e me traga
a embriaguez dos sentidos,
o sussurro de sonhos.
Que me toque a pele
e me permeie
de suavidades.
Que me chegue
largo e amplo,
manso ou nem tanto,
pleno de cumplicidades,
de silêncios e quietudes.
Que me vire do avesso,
me descompasse,
me lateje,
me inunde
e se espalhe,
se misture
às minhas células.
Que se perca
nos meus labirintos
e me faça querer
voltar sempre.
E que refaça,
em mim,
todos os rumos.

"Hiden Toughts" - L. Nimoy



 Escrito por Míriam Monteiro às 18h33 [   ] [ envie esta mensagem ]




Vem assim,
devagar
e manso,
como quem
sussurra
versos
ou toca
sonhos.
Planta
flores
na aridez
da minha alma.
Sussurra
manso,
e corre,
em mim,
teu rio,
inundando
veias,
alagando
margens
com tuas
incertas
marés.
Se quiseres,
dá-me
teus desvãos,
tuas frestas,
e tuas nesgas,
tua latência,
teus medos
e tuas urgências.
Entrega-me
teus estilhaços,
teus paradoxos
e teus avessos,
teus vazios
e tuas cheias,
a calma
e a tormenta,
teus infinitos
e teus finais.
Vem
e eu me farei
em tantas...
Eu me farei
abissal
e terrena,
etérea
e insana,
plena,
larga
e lânguida.
E, do meu regaço,
para guardar-te
sereno e casto,
farei
desmedida
amplidão.

"Nu" - Marc Odley



 Escrito por Míriam Monteiro às 19h14 [   ] [ envie esta mensagem ]




Não te percas, amor,
pois é tão tarde.
Faz amanhecer,
em mim,
a poesia
dos teus olhos.
Vem,
mesmo que
sorrateiramente,
mesmo que
em silêncio.
Vem,
que sei inadiável
esse meu desejo,
essa tua fome
das minhas horas.
Não te quero mais
como simples promessa,
como espera,
como presságio.
Eu te quero
em carnes,
ossos e dentes.
Eu te quero senhor
e, ao mesmo tempo,
frágil,
carente dos meus braços.
Eu te quero
poema e suor,
tuas marcas
na minha carne.
Vem
e reinventa,
em mim,
os sonhos.
Vem,
não te percas
na noite
em que te guardas
dos meus olhos.
Vem,
reverte o tempo,
pois é tão tarde
e nunca amanheces...
Vem,
pois é tão imenso,
tão vasto,
o nunca,
que me faz
pensa-lo eterno.

"Between Darkness & Wonder" - Carlos A. A. Pereira



 Escrito por Míriam Monteiro às 13h26 [   ] [ envie esta mensagem ]



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