Sangram-me as pontas dos dedos. De tanto arranhar as paredes da memória, sangram lembranças da tua ausência. E mastigo saudades, como quem compõe um poema ou uma canção suave, num compasso de desalentos. Cerro dentes para abafar o grito e não mastigar o veneno das horas. Os passos são lentos e calculados, para que eu não tropece e nem me corte nos cacos. Caminho lento como quem carrega restos, como quem carrega o tempo. Caminho, sem me importar com os buracos, os desvãos. Caminho, sem me importar com os possíveis abismos ou armadilhas do silêncio.

"Drunk Decline" - Wadimus Golino
Escrito por Míriam Monteiro às 14h56
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Uma tristeza chega rasteira feito bicho e se esconde pelas frestas dos meus olhos e nunca se mostra inteira. Uma tristeza caudalosa feito rio, falsa calmaria que esconde tumulto de peixes numa fuga de redes. Uma tristeza miúda, silenciosa como verme, que se alimenta de sobras ou do medo que se arrasta lento por entre as horas. Uma tristeza mansa e grande, esgueirando-se quieta e sorrateira, felina, a me espiar com olhos ávidos, a farejar medos e sobressaltos, a espreitar os pecados que ainda não cometi.

"Sem Título" - Stalker Stalker
Escrito por Míriam Monteiro às 14h26
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Metáfora
Toma as mãos que ora te estendo e faço tuas. Como faço tua a minha boca, com o mel de floradas várias impregnado à minha saliva, e todo o veneno, de gosto bravo e travo amargo, que guardo entre silêncios e dentes. Toma a minha pele, lanhada de secretas marés, marcada de fomes, esperas e desejos inconfessos. Porque teu carinho me falta, tua sede me abrasa e teu siLêncio me cala, viro pássaro de anônimas asas, a buscar-te no silêncio em que te guardas. Frágeis asas, inútil vôo.

"Flower" - Wojciech Jastrzebski
Escrito por Míriam Monteiro às 16h32
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Tento reter-te, para que, feito chuva fina, não escorras entre meus dedos. Para que não te escoes, gota-a-gota, pela minha pele e inunde os meus poros, a tua ausência. Tento reter-te entre os dentes, sem deixar que te diluas na minha saliva. Tento guardar teu sumo nas papilas, degustar-te, lenta e sôfregamente, como fruta madura. Tento reter nos olhos, a muda cumplicidade do desejo que havia e era tanto, que fenecia a razão dos dias, a lógica das horas, a aridez de tudo... E eu nua dos pudores, latejante e desmedida, urgente e lasciva, te entregava a boca, a pele, a razão e os sentidos. E, com mãos hereges, trêmulas e imprecisas, te buscava e me vinhas... Mas, a tua errância, a negar-me teus passos, veste de andrajos a beleza dos meus dias. E impunemente segues, secreto e oculto, surdo ao meu chamado. E é o teu avesso que se mostra: o reflexo invertido da tua volta. Então, só os meus sonhos baços, esse desalento. E lento, o tempo se esvai entre os meus dedos. As palavras a escorrerem de mim, nesse poema - chuva fina no meu solo seco.

"Tear" - Alexandre Belousov
Escrito por Míriam Monteiro às 15h50
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|