Sonho. E o meu sonhar é um pássaro efêmero e frágil. Se tento tocá-lo, desmancha-se em asas e nuvens de sonhar. Se tento retê-lo, perde-se na brutalidade das horas. Se tento vivê-lo, perco-me e não me resgato jamais.

"Cool Still Life" - Olga Borytsch
Escrito por Míriam Monteiro às 19h34
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Cantar de Amor e Medo
Prometo querer-te hoje e sempre, cotidianamente, na paz que busco e nas guerras que deflagro contra os meus medos. Prometo não ser perfeita, para que, tomando-me as mãos, tu me conduzas na busca dos meus inteiros. Prometo-te a fêmea, a devassa, a insana, mas também prometo saber fazer-me pequena, menina, quase santa. Prometo-te a pureza de mãos e seios, de poros e ventre, para que inaugures, em mim, todos os prazeres e todos os prantos. Prometo ungir meus pés com óleos santos, para livrá-los do pó do tempo em que, errantes, meus passos vagavam por não saber-te meu. Prometo acalentar-te nos braços, quando a noite (que tememos) revelar a sua inexorável face, e sussurrar que é chegada a hora de apagar estrelas. Prometo, então, não notar-te o olhar de medo e lavar meus olhos de todo pranto, de toda nódoa, de todo tempo, retendo neles, somente as paisagens que miramos.

Imagem - Rita Silva
Escrito por Míriam Monteiro às 17h21
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Meus seios, frágil ave no doce cárcere dos teus dentes. Meus seios que renascem castos, para que só a ti pertençam. Alva nudez dos meus seios a ofertar-te a rubra flor dos mamilos, sedenta da umidade da tua saliva, e que, ao teu toque retrai-se e viceja, desabrochando arrepios. Meus seios que se perdem na secreta intimidade da tua língua e se comprazem sob o jugo dos teus dentes. Indiferentes aos sobressaltos do peito, meus seios fazem-se calmaria, porto e remanso para receber teu cansaço, fruta madura para saciar tua urgência. E, na intimidade dessa entrega, na branda intranqüilidade do desejo, tu te confessas cativo, e eu me resgato inteira.

"Cedeste Ao Sono" - Hugo Amador
Escrito por Míriam Monteiro às 16h17
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Que eu possa fundar raízes, cavar a terra, fazer-me caule e escorrer seiva, sangrando versos. Que me fecunde a tua falta e que eu rebente em flores e frutos, essa prenhez de vésperas. Que a saudade se transmute em pássaro e pouse, tranqüila, em meus galhos. E que na chuva, eu possa, serena e intacta, banhar-me, nua, na poesia que, ao final de tudo, resulta em nada.

"Mystery" - Larissa Lasemn
Escrito por Míriam Monteiro às 18h23
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Algo de Pássaro
Busquei mãos de seda, suaves, diáfanas, para tocar-te lenta e brandamente. Fiz-me leve, fluida, maciez e aconchego de braços, para que, em mim, teus sonhos pousassem. Aplaquei a fúria dos ventos, para conceber-me ave. Enganei as marés, para que, Nau, aportasses. Do meu corpo, fiz vastidão e planície, para que teus dedos, confusos entre urgência e doçura, fizessem renascer, flores e perfumes quase esquecidos. Então, fiz-me quieta e mansa, para que o tumulto do peito, não te afugentasse os passos. Fiz-me pequena e frágil, para que, pássaro, pudesse caber no teu peito e no teu tato. E assim, sigo cultivando o ofício de esperar-te. Despida dos medos, minha alma nua vai, lenta e silenciosamente, tecendo asas, pressentindo ventos, preparando revoadas.

"Night Bird" - Igor L
Escrito por Míriam Monteiro às 20h22
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