Ainda que imprecisa, ilógica e inexata, tua imagem é a mais bela pintura
que meus dedos traçaram nas noites em que eu vigiava teu sono e te
observava sereno, tentando reter-te na minha memória. Fui construindo-te
devagar,compondo tua imagem, colando fragmentos que me deixavas
entrever por entre as frestas do teu silêncio.Nas noites em que, indefeso,
tu te abandonavas ao sono e meus dedos percorriam-te os traços. Ah, se
eu soubesse,então, que me perderias, que tua memória me ocultaria em
brumas, teria engendrado um modo de ser guardada pelos teus sentidos.
Teria eu, então, deixado, misturado à tua saliva, o sabor da minha. Teria
me transformado em gota e me diluído em tuas partes, impregnando-te
do meu cheiro e dos meus sumos. Ah, eu teria me confundido aos teus
poros, às tuas ínfimas partes. Agora, deixo que as palavras escorram
entre a rudeza dos meus dedos, destilando em poesia e letras, a falta
que me fazes. A minha alma necessita a dureza do teu corpo, precisa de
tuas escarpas, para rebentar em espuma,essa tua rascante ausência,
essa falta que me agrava. E chamo-te a mim, chamo-te assim, despida
dos pudores, escancarando em palavras, essa saudade.Sou o silenciar
dos teus álibis, pois sei onde te escondes na noite, sei do escuro em que
te guardas.E rogo que venhas, como chuva ou tempestade. Que laves a
minha falta de cor, que produzas, em mim, um arco-íris.Que faças florescer
a heresia dos meus sentidos,a desmesura da minha poesia sob o jugo do
teu beijo. Que me faças transbordar em delírios, e que eu rebente, nua
e em flores, a volta tua.