Simbiose
Deuses e demônios na minha língua, a passear no teu corpo inclemente, de poesia. Indecente, minha palavra te desnuda e eu pulso desejos que adivinhas. Tu não me tocas e, ainda assim, me arrepias. E meu corpo é líquido sobre o teu corpo lança. O meu corpo é líquido e o teu suor me escalda, e o meu corpo é líquido e, sobre o teu, derrama-se...

"Bjoern Oldsen"
Escrito por Míriam Monteiro às 15h55
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Quase Sagrado
Colado à minha boca, o teu nome. Enredado nos meus dentes, urdido em segredo nas noites em que, tua língua, pousada como pássaro na minha boca, reinventava todas as faces do desejo. Ungido no acre-doce da tua saliva misturada à minha, o teu nome. Intacto nos silêncios a que me obrigo, permanece o teu nome. Não permito que meus suspiros te denunciem, nem que meus olhos te desnudem às impurezas do mundo. Guardado em mim feito promessa ou prece, -quase sagrado- o teu nome sussurrado, soletrando as cores do meu dia.

By Maxim Kalmykov
Escrito por Míriam Monteiro às 20h18
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Saudade Clandestina
...E porque me sinto assim, como que esvaziada de palavras, republico.
O meu desejo é uma rua torta, de tortas casas e paredes rudes. Nenhuma estrela me observa ou te denuncia. Os teus passos de silêncio são fantasmas na memória da minha retina. A minha tristeza espreita por obscuras frestas. E pela rua, caminhando a passos lentos, só a minha saudade clandestina.
(04/07/04)

"Walking In The Fog" - Berenice Kauffmann Abud
Escrito por Míriam Monteiro às 12h24
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Poema de Água
Ser aquático que me espreita, a palavra desliza silêncios. Plânctons, algas, mágoas, permeando e emaranhando-se nos meus nadas, estendendo-se como corpos naufragados numa praia de silêncios. Mas, essa serpente de vertiginosas volutas, enredando-se no meu olhar e na minha língua, vigia, flutuando suspensa nos meus segredos, pronta a entornar venenos, inocular lembranças nessas águas que me guardam. E eu querendo a poesia líquida, palavras de água, bioluminescência de letras, uma paz fluídica que me embale e me guarde dos meus medos.

"Jelly Fish" - Foto encontrada na Web
Escrito por Míriam Monteiro às 12h13
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Poema de Vésperas
Mesmo sabendo que cotidianamente partes, permaneço ainda. Transformo o dia em véspera, para que restem uns amanhãs, ainda que parcos, prenhes de vésperas. De fera, faço-me dócil. E finjo que não há o tempo, que ele se estende pela eternidade da tua boca na minha, pela eternidade da tua fome no meu ventre, pela perenidade do teu desejo nos meus poros. E, então, deixo que sigas, como que distraído do tempo e das horas. E deixo que fiques, como se não me soubesse em estilhaços. Eu me arranho, para que não sangres. Dilato poros, para que arrepies. Passeio fomes pelo teu dorso e morro à míngua...

"Leaning" - Raquel
Escrito por Míriam Monteiro às 14h15
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