Desejo
Que os meus versos sejam o teu descompasso, confusão dos teus sentidos, sobressalto do teu peito. A minha calma, seja o teu delírio, o meu ventre, o teu abrigo e o meu seio, um fremente pássaro aprisionado nos teus dentes. Que o teu mel se misture aos meus venenos, e o meu nome seja flor perene, desabrochada nos teus lábios. Que o teu nome, gravado em mim, é revoada, eco, pétala, lume, colméia, cardumes, galáxias, ardência.

"The Red Connection" - Abdul Kadi
Escrito por Míriam Monteiro às 15h45
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O Homem da Linha - Uma Releitura
Há muito tempo, assisti a um filme maravilhoso - O Homem da Linha (Jos Stelling - 1985). Nenhum diálogo havia e, na trama, somente dois personagens.
O Homem:
Simples e completamente só, vivia numa casa igualmente simples, no meio do nada. Não havia nada a fazer além de cuidar de um pequeno pomar e observar, da varanda, as horas do dia e os movimentos da natureza.A única alegria era esperar a passagem do trem ( sua casa ficava à margem da linha) , ouvir o apito e depois observar a máquina afastar-se. Era uma alegria rara, esporádica, pois o trem, ali, só raramente passava. Ás vezes, o trem parava e deixava uma caixa com mantimentos, para depois ir-se para voltar não se sabia ao certo quando.
A Mulher:
Linda, bem cuidada, cheirando a flores e riquezas que ele não conhecia. Elegantemente clara como a luz da manhã. Um sorriso que o fazia lembrar de todas as luzes de sua infância.
Num dia de intenso inverno, o Homem, perdido no meio do nada, no meio do branco absurdo e monótono que a neve produzira, vê parar o trem e dele, inexplicavelmente, descer a Mulher que era, sem dúvida, a mais bela visão que seus olhos jamais tinham visto.
O trem parte, como sempre o fizera e como haveria de fazer pelo resto da vida pequena e simples do Homem. A Mulher, parada ao rés da linha, somente o observa, um olhar enigmático, que se poderia definir "vazio",não fosse a intensidade do brilho daquele azul que emanava dela. O Homem nada diz. Num gesto simples, abre a porta da cabana e a Mulher entra. Ele a ajuda a depor a pequena bagagem, vai até o fogão e prepara um café, que serve, depois, numa caneca grande, de metal rude, pintada de verde.
Ele transpira rudeza. As mãos são grossas e o rosto maltratado. Nada há de belo nele. Mas os olhos transmitem tanta doçura, que a Mulher se perde neles.
O tempo passa . Ele continua sua vida simples, de coisas simples e gestos pequenos. Mas, agora se compraz em colher as flores e os frutos que cada estação oferece, para presentea-los à Mulher feita de Luz. Ela aprende com ele, as cores de cada estação. Ela aprende com ele a simplicidade dos gestos e a beleza que há nas coisas pequenas e simples. Ela se despe dos tarjes ricos, mas não da luz que emana de seus olhos, muito mais intensa e azul, então.
Novamente, o Inverno. Como sempre, ele acorda e serve a ela o café, na mesma caneca rude. Ela somente o olha e ele compreende. Como sempre, não se falam. Nunca trocaram sequer uma palavra, pois todas eram inúteis ao sentimento que partilhavam.
Ela se levanta, arruma novamente a pequena bagagem, no que ele a auxilia. Os gestos são pequenos e rudes nele. A tristeza nos olhos, imensa. O trem chega e ela parte. Ela somente o olha com os olhos azuis e tristes e parte. Inexplicavelmente como chegou.
Ele acompanha o trem com olhos de tristeza, até que se perca em meio à paisagem branca, à neblina da manhã. Então, entra em sua cabana, coloca cuidadosamente a caneca na pia e se deita. Parece um grande feto, encolhido numa dor que não cabe em seu coração. Uma dor que é grande demais para o seu peito, que aprendeu a alegria do amor.
E assim ele fica. Imóvel. Perdido de sonhos e de saudade. Ao seu redor, na cama simples, tosca, começa a crescer a hera. A hera da solidão, do amor perdido, da saudade imensurável e dos sonhos que sabia que nunca mais teria. A brutal consciência do saber que nada mais seria ou teria o azul daqueles olhos. Ele, simplesmente, deixa-se ficar, até que a hera o cubra totalmente, num sono que se adivinha sem sonhos.
Sem azul.

"Segel Aus Licht" - Ralf Greiner
Escrito por Míriam Monteiro às 15h09
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