Não ao Poema
Eu vinha concebendo um poema, que poemas não vêm assim, num estalar de dedos, num piscar de olhos. Para deixar vir um poema, necessário é criar asas, encharcar olhos e alma de alguma tristeza, alguma saudade ou alguma beleza. Porque poemas se fazem devagar e suavemente, eu vinha gerando um poema. Um poema que desabrochasse feito flor, com som de brisa e que escorresse luz nas frestas do dia. Para nascer um poema, há que se mastigar as palavras, triturá-las, para extrair delas, o sumo, o nectar, que nem sempre é doce. Porque há poemas amargos, há poemas que doem, há poemas rascantes, que lanham a pele e deixam marcas. Há poemas que ressuscitam o que já foi, que devolvem o que nunca, que revolvem a terra em busca da absurda semente das palavras não-ditas. Há poemas que nos tomam inteiros, que nos tornam inteiros e há outros, que nos fazem em pedaços (- esses, quase todos os poemas). Escrever poemas é, acima de tudo, um ato de coragem, porque desmascaram, impiedosamente, todas as nossas faces. E porque hoje quero manter-me oculta, não escrevo um poema. Para que possa guardar-me, quieta e inteira, dentro dessa frágil e permeável casca, digo não ao poema. Só hoje...

"Maria Pleshkova"
Escrito por Míriam Monteiro às 14h56
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